In the night, I hear 'em talk
The coldest story ever told.
Somewhere far along this road he lost his soul...
To a woman so heartless.
bela-inconstancia

Eu acredito que toda garota sonha com o príncipe encantado. Comigo não foi diferente. E, apesar de ter me convencido de que não, eu não precisava de um, eu estava mais do que enganada. Porque sempre tem aquele cara diferente que faz todos os outros parecerem iguais. Aquele que te entende, que gosta das mesmas coisas que você, que te faz sorrir dos mais variados jeitos. Sabe hoje em dia existem todas aqueles discursos feministas de que as meninas devem ser independentes, mas eu acredito sim que cada uma deve ter um príncipe encantado perdido em algum lugar. Um que prove a maça e diga: “Ei, pode comer. Está sem veneno, já provei.” Porque eu acho que amor é isso. Não é dependência, é proteção, é cuidado. As vezes um pouco de estabilidade faz bem. Acordar e saber que está tudo bem, que ele está ali ao seu lado e que vai continuar ali na noite seguinte. É bom saber que vai ter sempre alguém lutando por você, sempre alguém ao seu lado, sempre alguém disposto a te encontrar, a fazer tudo por você. O amor de conto de fadas pode parecer meio tolo, meio enjoado, mas é o mais puro e verdadeiro de todos. E eu só queria dizer, que eu amo você, meu príncipe encantado.

- Tá, o que você quer? - Olhei pra ele com uma sobrancelha arqueada.
- Um café pra esquentar. Que tal? - Ele sorriu de canto de boca. Um sorriso que deixava seu rosto ainda mais charmoso.
- Sério? - Perguntei. Não acreditava que ele estava ali, mesmo depois de tudo.
- Porque não prende o cabelo? Esconde seu rosto desse jeito.
- Olha quem fala. Seu cabelo é quase tão grande quando o meu.
- Verdade. Mas o meu rosto não é tão bonito quanto o seu. - Ele levantou e caminhou em direção à mim.
- Engana-se. - Sussurrei.
- O que disse? - Ele pegou uma mexa do meu cabelo e colocou atras da minha orelha esquerda. Depois seus dedos quentes envolveram meu pescoço. Aquele toque me deixava tão tonta, tão mole. Juntou todo o meu cabelo em um coque bagunçado.
- Bem melhor não acha? - Sorriu. Um daqueles novamente. - Não esconda seu rosto minha linda. E me beijou. Tão quente, tão bom. Sentia seu coração ali, pulando forte junto do meu. Parecia um martelar imenso e sem fim. Sentia-me segura.
- Eu te amo. - Deixei escapar em seu ouvido quando nossos lábios finalmente soltaram-se.

Ele era um gato. Mas daqueles bem gatos mesmo sabe? Bem no sentido literal do “ser gato”. Tinha as feições quadradas e os olhos indefinidos de cor. Era magro, esguio, alto, independente. Saiu de casa aos quinze, fazia de tudo um pouco. Diziam que era sorrateiro e traiçoeiro, tinha poucos amigos. Pra mim era apenas sozinho.
Ela era feito cadela. No bom sentido da palavra, claro. Mal criada, bem do tipo mimada que todo mundo cuida. Dependente, vivia em “matilha”, cheia de amigos, de mimos, de agrados.
Enfim se conheceram. E você alguma vez já tentou colocar gato e cachorro juntos? Ele elegante, com o andar surdo, imperceptível. Já ela afobada, desastrada, parecia ter dois pé esquerdos, ou melhor, parecia ter quatro patas. Quando se encontraram foi aquele choque. Ela latia, berrava, rosnava. Ele era indiferente, frio, rondava e olhava nos olhos, sem encarar.
E ela dizia que ele era frio, ridículo, que não passava de um mal amado. Ele não deixava barato e a chamava de mimada, estressada, neurótica. Foi assim por muito tempo, brigavam mesmo, como cão e gato brigam, do tipo inimigos naturais.
Um dia, desses que começam como um outro qualquer, os amigos, que ela achou que nunca iriam lhe faltar, foram embora. Os pais se cansaram de alimentar filhote criado. A vida lhe tirou o osso que ela tanto gostava de roer. Ele cansou de ser sozinho. Porque solidão dói, e ser só é tão solitário. Estava na hora de sentar e aproveitar o pires de leite, trocar as gatas vira-latas por alguém que fizesse cafuné quando ele ronronasse. E é meio assim que a vida age afinal, meio por coincidência, há quem diga que é sorte, só sei que eles se encontraram de novo. E sei também que dessa vez tinha algo diferente naqueles olhares. Ela tinha um olhar de cachorro que cai da mudança e ele um que de curiosidade, essa que todos falam que matou o gato. Mas naquele miado diferente e um uivo meio que de choramingo, eles começaram a se entender. E de inimigos mortais se tornaram, apenas cadela e gato, ou melhor, homem e mulher. Com suas diferenças, sua crenças, seus ciúmes, seus medos, inseguranças e mais um milhão de defeitos e qualidades. E o ponto é esse mesmo, que nem gato, nem cachorro, nem homem, nem mulher, nenhum é melhor, nenhum é pior. Eles se completam e ponto, pronto. E assim aconteceu com eles, se completaram. Tornaram-se um bicho meio estranho que late feito cachorro e ronrona alto feito gato, que corre atrás do próprio rabo e toma banho se lambendo, que é bobão e orgulhoso. Que é apaixonado.
Sabe aquela história de casal 20? Então, eles mais pareciam um casal 22. Daqueles bem 22 mesmo. Se olhavam e de repente eram almas gêmeas, como se tivessem vivido vidas e vidas afins, sempre juntos. Porém, tão breve como suspiros, eram os momentos de paz. Ela levantava á noite, tinha o sono tão inquieto, e se por algum acaso encontrasse uma lingerie diferente, ou até um aroma de algum perfume desconhecido, e lá estava montado mais um circo. Enfiava uma camisa no corpo desnudo - mesmo que fosse dele - calçava as botas meio tortamente, e gritava para quem quisesse ouvir que ia embora, que não ficava nem mais um minuto ali, que nunca mais queria vê-lo. E ele levantava, arrastava os pés, e dizia que não, ela não iria embora. Pronto, ela gritava mais e esperneava e o xingava de todos os possíveis nomes. Ele a segurava pelo braço e era tapa em todas a direções. Ai ele perdia a cabeça e gritava que se ela quisesse mesmo ir não teria voltado. E lá vinham as lágrimas, que queimavam o rosto de ambos. Os saltos finos da bota batiam apressados no chão de madeira e o barulho de portas batendo atrás dela. Ela sentia ele respirando pesado a poucos centímetros atras dela e se não fosse pela diferença de segundos, não teria conseguido bater a porta do banheiro. Abriu a torneira da pia e se olhava deplorável no espelho, e por trás da porta do banheiro ouvia as batidas e os pedidos de desculpa. Um tempo passou e a porta se abriu. à seus pés, tinha um bilhete rabiscado com uma caligrafia quase ilegível e uma flor - a mesma que ontem fora entrega em meio a lidas juras de amor. Ele tinha a cabeça encostada na parede e sentiu as mãos frias e pequenas lhe entrelassarem a cintura e os lábios estranhos em forma de coração lhe beijarem as costas. E segundos depois já estavam se beijando tão fervorosamente que com certeza terminaria na cama, como se nada tivesse ocorrido. E enfim, estavam bem. Até a próxima briga, e até a próxima reconciliação, sempre nesse eterno ciclo vicioso.
Sempre gostei das histórias mais impossíveis, das mais improváveis. Passava noites inteiras imaginando os finais, os felizes para sempre, tentando adivinhar o que vinha depois. Adorava ouvir cada palavra e me deliciava com cada uma delas, cada palavra diferente. E foi ai que aconteceu o conflito da minha própria narração, essa que chamamos de vida: eu cresci. E cada vez mais que do mundo eu conhecia, cada vez mais eu via que tudo era bem diferente das histórias que tanto me enchiam os olhos. Eram tantas as dificuldades, tantas as decepções, os dessabores da vida, que me faziam sentir tanta falta das histórias de ninar que embalavam meu sono, dos contos de fada que acendiam minha imaginação toda noite. E aquele príncipe no cavalo branco que eu esperava na janela todos os dias? Onde é que ele foi parar? Quem é que viria extinguir os monstros do meu armário? Os temores da minha vida? Depois de um tempo percebi que ficar parada na janela, só me faria respirar poluição. Aprendi a lutar contra os monstros, e a encarar os medos de frente.
E o tempo passou - sim, porque ele sempre passa - e me tornei assim, uma princesa meio que moderna, meio que estranha. Perdi a inocência e a credulidade cega naquelas pequenas histórias clichês que, percebi, não passavam daquilo: histórias. E esse era o meu clímax, o ápice da minha história-vida. E pensei mesmo que iria chegar ao desfecho sem que nada mudasse.
Mas foi mais um desses desencontros que me levaram a encontrar você. Que não veio a cavalo branco, não tinha uma armadura ou uma espada em baixo do braço. Pensei à primeira vista que fosse o vilão - daqueles muitos que eu, princesa-independente, já havia enfrentado - que adoram quebrar corações depois de muitas doses de elogios e juras que elevam o ego de qualquer uma. No entanto, foi um brilho sutil no seu olhar, um sorriso de lado que você deixou escapar, que me fez ver que eras príncipe. Daqueles que se disfarçam de sapo porque querem, talvez porque fosses príncipe que já cansou também de esperar sua princesa. Só sei que foi você que devolveu o cor-de-rosa da minha vida, que me ajudou a ver o lado bom de cada coisa, você que me protege sempre que meu lado impenetrável desmorona, que faz cafuné pra eu dormir e que conta inúmeras histórias que me reconfortam. Meu príncipe que anda de moto e empunha um capacete, que me ajuda a escrever o final da minha narração - que eu, enfim, descobri que dura muito mais que o “felizes para sempre”.

Lábios geralmente são macios e delicados, mas, como tudo nela, os seus eram diferentes. Tinham sempre uma ou duas pelinhas soltando - mania irritante a que ela tinha de morder a boca - e, apesar dos lábios em forma de coração, quase nunca eram delicados. Eram avassaladores, quentes, incrivelmente cheios de desejo. As vezes ela vinha abrindo sorriso, com o dentinho torto na frente que era puro charme, e eu via em seus olhos brilho e malícia. O nariz tinha uma dobrinha estranha que sempre se sobressaltava quando ela ria - se é que aquilo era um riso, eu sempre considerei um barulho. As sardas do seu rosto pareciam estrelas e pipocavam em todo lugar. O cabelo era laranja, tão laranja que evitava sair ao sol. E acho que era por isso que a pele era sempre tão branca, bem translúcida mesmo. As unhas eram curtas e não saiam da boca - outra mania irritante. Vira e mexe tinha band-ainds espalhados pelo corpo, daqueles mais criancinhas possíveis. Era assim mesmo, feito pata. Esbarrava em tudo, caia a todo momento, desastrada que só. Seus pés eram pequenos e os dedos era coladinhos, parecendo anteninhas. Tinha alergia a tudo, me surpreendo de não ser alérgica ao ar. Era frágil e forte ao mesmo tempo. E além de tudo, era minha. Era toda minha, do fio laranja ao dedo-antena do pé. Foi a única que amei, a única que soube de verdade quem eu sou. A única pra mim. Únicos lábios, que naquele dia tão macios e delicados, me deram um último beijo. E se foi. Ela, unicamente minha.